antinatural
Fevereiro 18, 2008
Estava vendo o Flickr de uma grande amiga, Paula Muniz (pessoa que nutro uma grande admiração como ser humano e fotógrafa. Não só pelo pesadelo de fotos perdidas em meio a furacões perseguidores ou morte pela arte que ela me contou, mas por perceber nela uma visão e vivência artística autêntica), quando me deparei com uma belíssima foto de dois cachorros da raça Husky. A minha atração foi pela beleza dos animais semelhante a lobos ou mastins selvagens e pela edição da iluminação da foto. Vendo a foto ampliada, notei algo que chamou bastante a minha atenção; os cachorros estavam acorrentados pelo pescoço. Nada mais natural no mundo, eu sei, mas meu espírito sempre tende a poesia perante esse tipo de brutalidade. Quem serão os donos dos cachorros? Não me importo em saber nomes, mas, que raça? Homens? Homens como nós? Qual o nosso interesse real em aprisionar uma criatura que vive em sua condição natural pra perto de nós? Nós temos correntes? Se sim, quem haveria de escolher uma vida acorrentada? Talvez o mundo todo.
Sempre senti duas coisas quando estou em contato com animais e a natureza; medo e nostalgia. Medo por sentir o eco da naturalidade que há em mim e que sempre deseja vazar, sempre me levando por caminhos estranhos, tortuosos, porém, mágicos e únicos – locais onde posso provar a desmesura do meu gozo pela culpa. Por talvez não saber lidar com tamanha brutalidade e naturalidade, a espontaneidade em essência, a vontade de obliterar tudo o que não é eu e viver em harmonia com o caos natural que constitui as coisas. Um mundo sem valores objetivos, onde a razão não me castra mais, onde eu possa viver em plenitude meu narcisismo, minha sexualidade e minha angústia.
Nostalgia pelo fato de sentir que ainda há a razão para combater o meu desejo, e, com isso, não ser autenticamente aquela criatura devastadora e sátira que eu era quando criança, pois não havia o peso do mundo “adulto/responsável” e norteador. Meu espírito deseja um mundo sem norte, enquanto a minha razão funciona com uma bússola indesejada e impertinente.
Não negarei aqui o fato de que a beleza lupina do Husky ser um eco de uma estética cultural, uma beleza totalmente aprovada pelo ocidente e que isso em si faz parte de uma grande tradição secular poética, mas, também não negarei que a beleza dos cães ficou em segundo plano perante a castração das correntes que os prendem pelo pescoço. Acho que como Deus não serve mais ao homem, como Deus é fruto de uma criação mitológica humana e que isso não apetece nosso espírito curioso e questionador, o homem tende a ser o que ele sempre foi, criador. Mas o eco da castração pela moral, pela culpa, que vaga livremente entre os séculos ainda ecoa e macula os nossos espíritos. Naturalmente tendemos a castrar, ou seja, tendemos a ser Deus. Mas, como há a impossibilidade de castrar (pra mim não há castrador, há aquele que deseja ser castrado, já que não temos acesso ao Outro, pois ele só existe simbolicamente para nós e o poder que vinculamos ao outro é unicamente substrato do nosso Imaginário), tudo que nos guia cegamente é o nosso desejo. O dono dos cachorros deseja o desejo muito mais do que o objeto de desejo em si, pois estamos condenados ao nosso reino narcísico solitário e árido. Talvez a prisão de um animal seja equivalente a admiração de fotografias de parentes mortos ou distantes de nós, ou seja, pura nostalgia de nossa naturalidade perdida.
Belíssima foto, Paula. Parabéns
A foto pode ser vista aqui: http://www.flickr.com/photos/paulamz/2213495066/