Samsa
Fevereiro 18, 2008
olá,
em linhas mal traçadas e presunçosas, contarei um caso bastante curioso que ocorreu comigo na semana de Carnaval.
Nada melhor do que um bom banho pra dormir, não é mesmo? Mas, quem ficaria à vontade se dentro do box do banheiro houvesse uma gigantesca barata? Foi exatamente o que ocorreu comigo.
Estava entrando no banheiro pra tomar meu último banho do dia, quando fui surpreendido por uma enorme barata entre as portas do box. Fui pego tão de surpresa que minha única reação foi dar um salto automatizado pra fora do box. Pensei brevemente no que iria fazer até decidir buscar veneno. Voltando ao banheiro com um frasco de veneno, decido não o fazer, pois o veneno transformaria o banheiro em um ambiente completamente irrespirável. Então, decidi usar o velho método da sandália. Entrando no box, puxo uma das portas deslizantes para o lado. Nesse momento, tenho a visão aterradora da barata à frente dos meus olhos. Sua forma hedionda era agressiva aos meus olhos e isso era mais do que suficiente para que eu odiasse sua existência. Aproximo lentamente a sandália da futura vítima para que ela não perceba a morte que a espera. Não foi o suficiente. Como se percebesse em minhas intenções o desejo de sua morte, a barata corre e se esconde entre as frestas dos box. Sem paciência para essa operação, decidi deixar pra lá e voltar para cama. Na cama, fui acometido de uma pergunta tão estranha que nem consegui voltar a ler meus livros. A pergunta foi: “por que ela fugiu de mim?” Essa pergunta, de tão absurda e óbvia tomou o meu imaginário durante toda a noite.Pensei e repensei na situação e pensei e repensei em minhas perguntas. Fechei os olhos e revi a forma grotesca da barata, o que me gerou mais perguntas. “De onde vem meu desejo de matá-la?”. Pensando no assunto, percebi que o meu ódio e a minha repulsa pela barata era unicamente cultural. Talvez essa repulsa não seja nem algo criado por mim. Talvez eu apenas estivesse continuando um antigo ritual de ódio ao Outro.
Tentando cessar o “talvez”, procurei ser mais afirmativo comigo mesmo. Pra mim era óbvio que a barata havia fugido do meu golpe movida por um instinto de sobrevivência, de auto-preservação, mas, tentando ser um pouco mais poético, procurei pensar de outra forma.
Em meu imaginário, puni a barata com consciência. Nessa consciência ela sabia de todas as coisas que a constituía. Ela sabia que não era separada de si própria pela Linguagem, e, com isso, ela era naturalmente ela mesma; Ela era Ser. Ela dava de ombros para qualquer tipo de labirinto narcísico. Não se perdia dentro de seus labirintos e tinha total acesso a ela mesma. Talvez o desejo de sua morte fosse apenas inveja. Inveja pela barata ser ela própria. Ser o estar-aí em sua total condição existencial e não precisar de símbolos e nem nomes para poder se segurar em nada. Eu, criatura que nomifica e dá sentido, me senti muito pequeno perante a sua Natureza devastadoramente viril. Ela era pura liberdade de espírito e pra ela bastava si própria. Tinha tanto respeito por sua “virgindade” que conseguia andar e vagar pelos cantos mais obscuros, sujos e inóspitos do mundo em uma condição muito além do bem e do mal. Muito além de valores.Esse estranho sentimento me tomou por dias. Tentei domar a minha mente mesmo sabendo que minhas questões eram indomáveis; perdi a luta comigo próprio.
No dia seguinte, tomei banho olhando a barata frente á frente, arrumei-me pra sair e encontrei com Haymone. Fomos ver a Noite dos Tambores Silenciosos. Na ida, passamos perto do camelódromo, onde havia construções escuras e inacabadas completamente destruídas pela ação do tempo e natureza. Inebriado pela escuridão do lugar, soltei um comentário que acarretou uma breve discussão.
Eu: Como são duras as formas daqui. Tudo muito escuro… Sombrio.
Haymone: É horrível!
Eu: Por quê? Por que nunca nos acostumamos com a natureza das coisas? Não será essa a condição desse lugar?
Haymone: E por que desconsiderar a estética? Não temos os cinco sentidos?
Eu: Temos?
Haymone: Claro que temos.
Minha questão vai muito além da postulação científica dos cinco sentidos. O quê gera esse desconforto com todas as coisas que são levadas pelo tempo e, com isso, fogem completamente do domínio humano? Eu poderia me perguntar: “e se um arquiteto reformasse esse lugar, pintasse e terminasse as obras inacabadas, como ele seria?”. A questão é que não existe “se”. Á grosso modo filosófico, as coisas não “foram” ou “serão”, elas “são” e “estão”. Pra mim, o uso do “bom gosto” e “noção estética” não me servem mais, pois, além de não apetecerem o meu espírito e suas questões fundamentais, me soam como escapismos para a brutalidade da realidade, essas que tendem a tomar um caráter punitivo por serem unicamente o que são; Naturais. É isso que gera nos apolíneos o ímpeto modificador para mudar e dar sentido as coisas que são regidas pelas forças brutais e cegas da Natureza. E se o carro quebrasse? Não seriamos forasteiros num mundo obscuro que desconhecemos suas regras? Não somos nós mesmos forasteiros dentro de nossa própria escuridão? Esse apego à luz, ao belo e ao socialmente permitido me remeteu a barata do meu banheiro. Sua carapaça escura e reluzente, suas patas finas e peludas, suas enormes antenas, seu cheiro característico, tudo isso remonta um peso cultural de algo a se ter nojo, algo merecedor de aniquilação, embora eu considere a barata infinitamente superior a nós. Para os apolíneos, a barata é a perfeita caracterização do Outro, enquanto, pra mim, ela é um verdadeiro emblema do “estar-aí” no mundo.
Meu coração se torna cada vez mais bruto ao permitido e ao luminoso. Minha preocupação é “a coisa em si”, pois só assim eu penso que acharei aquela grande força reformadora e movedora de montanhas interiores que desde sempre habitaram em mim. O repúdio ao hediondo tem que ser repensado e a batalha das forças brutas da natureza, respeitado, pelo simples fato de estarem completamente além de nossa presunção de controle.Passei dias pensando sobre isso até que decidi escrever. Acho ainda que o meu raciocínio sobre isso não atingiu sua plenitude, mas sinto que estou muito perto do que procuro. Quanto à barata, nunca mais retornei a vê-la.
Junior,
Uma barata não tem espírito livre porque ela não tem espírito.
Como animal tem uma característica interessante: ela é o único animal que registe as mais altas dodes de radiação, porisso, na 2ª guerra após a bomba de hiroshima e nagasaqui explidirem no japao e contaminar todos os outros animais e plantações, os humanos sobreviventes do caos começaram a comer baratas (era o que restava).
Até hoje esta necessidade pós guerra que acabou virando hábito/cultura é comida por lá.
Para nõs que não passamos por guerras e temos mais frescuras, a barata é simplesmente um bicho nogente, horrendo e que tem no mundo ocidental uma única utilidade:
fazer o teste de bicha.
Vc. solta uma barata viva no local onde esteja o cara de quem desconfia e se ele der aquele gritinho Ai… Aí está confirmado.
A praticidade não é nenhuma magia divida, é apenas uma aptidão humada ( de algumas pessoas).
Serve sim para resolver problemas de ordem material, os quais podem por vezes acarretar problemas de ordem emocional se não resolvidos.
Não é milagre nem mágica, mas faz o cotidiano fluir melhor.
A praticidade é necessária porque nossa carcaça humana precisa de alimento, roupas, remédios, um teto, um chuveiro e muitas outras coisas mais de ordem material que a mídia com o sei feitiche da mercadoria que nos atinge em cheio nos deixa reféns.
Isso é uma verdade incontestável.
Quanto aos problemas existenciais, para estes teremos a eternidade para conviver com eles…
Curtí-los ou desprezá-los.